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2ª parte do capítulo I
Este foi o primeiro dia de aula que dei após minha volta e, novamente o destino não me sorriu. Catarina (era seu nome) faltou. Perguntei para a garota que ficara no meu lugar se a “menina” que faltara hoje não tinha mais vindo. Ela me respondeu não, ela veio, e inclusive perguntou o motivo de o professor não ter vindo. Eu queria saber se eram exatamente aquelas suas palavras, mas não poderia levantar suspeitas. “Professor?”. Ela poderia ter me chamado de outra coisa – “moço” eu já ficaria feliz –, já que eu aparento cerca de dezoito anos. Mas tive que ficar sem esta resposta. A outra pergunta que me perseguia nestes últimos dias, também continuou sem resposta. A garota que me substituiu não fazia menor idéia da idade desta “menina” (que agora já sei). Claro que dissimulei o máximo que pude, fazendo alusão à falta de idade – a única da turma, enfatizei – em sua ficha. Fiquei algum tempo na sala, depois que a substituta saiu. Tentei captar o espírito de Catarina (grande até no nome, viajava com meus pensamentos) naquela sala. Espírito que mudou minha vida, mudou meu modo de me ver, meu modo de ver as pessoas. O mundo possuía agora outras cores nunca antes captada pelos meus olhos. A própria música, minha paixão, assumia outra proporção, pois por causa dela, conheci Catarina. Abençoei meus pais por terem incitado este amor dentro de mim desde o útero de minha mãe. Até pensei em voltar à universidade para terminar minha faculdade de música. Tranquei o último período para me aprofundar em alguns estudos de piano, e também aproveitei para colocar minha leitura em dia, além de aprender a tocar violão. Claro que meus pais não ficaram muito felizes com a idéia, mas eu sou emancipado há anos. Com dezesseis, após completar o segundo grau, fui morar próximo ao instituto, arranjei um emprego no centro da cidade e à noite estudava música no instituto. Fiquei um ano assim, me preparando para o vestibular. Foi um ano de “descanso” da chatice do colégio. Mesmo achando tudo aquilo um saco, sempre fui um aluno nota dez; tinha facilidade enorme em apreender as coisas, e tenho até hoje; talvez por este motivo nunca gostei de ficar trancado dentro da sala de aula ouvindo o que já sabia, ou escutando repetições inúteis para mim.
Hoje já pago todas as minhas despesas e, em gratidão, meus pais me deram de aniversário de vinte anos, um tipo de estúdio, onde passei a morar a partir de então. É uma sala enorme, com divisória apenas para o banheiro, como os estúdios parisienses e nova-iorquinos, onde os artistas moram no mesmo local onde compõem sua arte. Algumas poucas divisórias fizeram de um galpão, meu lar e meu ambiente de estudos.
Tenho agora dois dias para revê-la, Catarina, e conto as horas para este momento. Fico feliz também por já ter um mote para nossa conversa, que será após o fim da aula (o planejamento é impossível não acontecer), pois preciso saber por quantos anos você esteve longe de mim nesta vida; claro que não nestes termos. E vou me perguntar, em silêncio, por quanto tempo eu terei a honra de ver tamanha beleza. Quem sabe um dia possa te fazer esta pergunta, Catarina; e aí, sofrerei também os segundos que seus lábios e cordas vocais separarem de meus ouvidos tal resposta.
Estou fazendo planos demais para quem não deveria planejar nada. O simples planejar joga-me uma culpa que não é minha. Culpo meu coração. Culpo coisas abstratas, pois só a elas consigo jogar esta culpa que a sociedade poderá impor sobre mim algum dia. Uma centena e um pouco mais de anos atrás isto não seria nenhum absurdo. Fosse um casamento que as famílias consentissem, estava perfeito. Nestas ocasiões o que menos falava era o coração; mas imagino os grandes amores que homens sentiram por meninas e que, melhor, foram correspondidos à altura; imagino as cortes que estes homens fizeram por elas, a docilidade da conversa frugal na sala da família destas. Avanço um pouco mais no tempo, no penúltimo século, lá no comecinho; a sociedade começando a ficar cada vez mais moralista neste sentido, porém, no interior do Brasil e de outros países, as mocinhas também casavam com os “homens já feito” daquele tempo. O calor dos trópicos, as músicas sertanejas que adocicavam os finais da tarde. Até mesmo o soar dos sinos deveria ser motivo para palavras apaixonadas dos “pombinhos”. E em todas estas cenas eu só conseguia visualizar “minha” Catarina. O minha foi logo dispensado de meus pensamentos; tinha que me conter em todos os níveis possíveis. Antes de dormir, para aplacar minha alma, fui compor algo ao piano. Dediquei a pequena e rápida melodia “a ela”.
Catarina apareceu-me num sonho estranho: a melodia que compusera naquela noite, eu a tocava – ela ganhara alguns floreios neste meu sonho – numa igreja vazia; estava feliz com aquele momento meu e, no sonho, não pensava nela. Lembro que acordei rapidamente com alguma coisa e logo voltei a dormir. Por incrível que pareça, meu sonho continuou, mas agora era outro. A igreja também era outra, uma igreja maior, como a Matriz; e ela estava agora com todos os seus bancos preenchidos por todo o tipo de gente. Não tentei reconhecer ninguém, mas continuei tocando a melodia. Quando olhei para a porta, Catarina entrava na igreja com um vestido de noiva, vermelho, aumentando o olhar de espanto das pessoas. Havia um pequeno burburinho entre os presentes. Olhares se cruzavam faiscando indignação, e eu, com um sorriso enorme, olhava-a chegar cada vez mais perto; veio na minha direção e beijou-me na boca durante muito mais tempo do que seria o normal. Quando nossos lábios se desgrudaram, a igreja estava vazia. Nem mesmo havia um padre para sacramentar o que quer fosse para ser sacramentado. O que era pra ser feito, o amor, estava feito, pensava, enquanto a abraçava ternamente. Então o sonho acabou: meu aparelho de som despertou.
O dia passara lentamente. A espera angustiava-me profundamente, mas eu não me deixava abater. Haveria de passar estas próximas vinte e quatro horas pensando em coisas para fazer. Fiz a partitura da melodia que, um dia, intitularia Catarina. Por enquanto ficou como “Amor”. Dei aula normalmente, apesar de olhar para porta da salinha e vê-la – em minha cabeça – entrando algumas vezes. Mas amanhã ela chegaria. Amanhã seria um belo dia. Delirava com a hipótese de ser, também, um belo dia para Catarina; esforçar-me-ei ao máximo para que ela tenha, pelo menos nos quarenta e cinco minutos em que estiver sob minha tutela.
(fim da 2ª parte do capítulo I)
publicado na edição #8 do Clap, em dezembro de 2007
Capítulo I (1ª parte)
I
Doze anos? Essa era a pergunta que vinha me fazendo esta semana. Mudei de pergunta em pouco mais de quatro dias; até então a pergunta era: eu não sou homossexual? A resposta veio rápida, repassando o que me aconteceu:
Quando a encontrei pela primeira vez – uma semana se passara desde então –, seus olhos se encontraram comigo e eu desvaneci. Senti meus pés suando, assim como minhas mãos. Forçava minha mente para não gaguejar. Ela entrou como uma deusa-ninfa. Uma ninfa com pouco mais de dez anos de idade, e com uma presença de espírito de uma deusa. Absorvia todos os meus olhares e todas as outras meninas e meninos que monitoro para o coro também foram absorvidos. Eles – meninos e meninas – passam por mim durante dois meses até entrarem no coro infantil. E ela agora ficaria por todo este tempo sob minha tutela. Sabia que não podia ceder neste tempo, e poderia esperar o momento certo, para depois não recaírem acusações insidiosas sobre mim. Mas que nada! No primeiro dia, quando fazia o “reconhecimento” dos alunos, tomei a mão de cada um – uma desculpa para poder tocá-la e reconhecer o motivo dos meus batimentos acelerados. Quando nossas mãos se encostaram ela parou de encarar-me – o que fazia desde que entrou – e fechou os olhos; suspirou e depois continuou assim quando a soltei. Não posso precisar o tempo que ficamos de mãos dadas. Sei que foi o mínimo para que ninguém pudesse pensar qualquer coisa, e o máximo para que o relógio parasse. Consegui escutar até mesmo um violino que era tocado no outro lado do instituto.
Mas o momento acabou, só que os segundos corriam, agora, sem pressa. Eu estava em câmera lenta, e a percepção de seus olhos-amêndoas me seguindo, bastava para meu coração continuar batendo. Mas o gran finale daquele dia foi quando seus lábios se apertaram contra minha face, ao se despedir. Senti seu calor, o provável calor de seu semblante ruborizado naturalmente – ela parece não usar nenhuma maquiagem. Ao sair da sala fui obrigado a sentar-me. Continuava ouvindo a nota aguda do violino, sentindo seu leve perfume de menina-mulher. Na sua ficha não constava idade, um descuido que iria corrigir na próxima aula, mas o destino não me sorriu; tive que me ausentar por alguns dias, pois trabalho como músico e isso me obriga a viajar constantemente.
Estes dias foram sofríveis; sim, minha homossexualidade era uma farsa – voltando a minha pergunta inicial que mudara –; uma farsa montada por mim mesmo desde que nasci; desde minha infância, até o começo da adolescência. Este tempo todo foi preenchido com música: canto lírico, um pouco de violino, piano, e, há poucos meses vinha aprendendo violão.
Com o piano e com o canto lírico, mais um pouco de violino, começo meus passos na carreira de regente de coro, claro, como monitor de coros infanto-juvenis. Mas é o primeiro passo. Só que o risco desta minha mudança de pergunta, aumentava um temível fim de carreira. Isso tornar-se-ia realidade somente se tudo que minha mente sonhava, acontecesse; obviamente pensando no lado ruim da coisa. Já, se eu tivesse sorte… bem, nesse momento eu paro de pensar. Sem planos, é assim que tem que ser, e assim que será.
(fim da 1ª parte do capítulo I)
publicado na edição #7 do CLAP, em setembro de 2007