“Doze Anos”

uma novela de Rômulo Mafra

Capítulo I (1ª parte)

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I

Doze anos? Essa era a pergunta que vinha me fazendo esta semana. Mudei de pergunta em pouco mais de quatro dias; até então a pergunta era: eu não sou homossexual? A resposta veio rápida, repassando o que me aconteceu:

Quando a encontrei pela primeira vez – uma semana se passara desde então –, seus olhos se encontraram comigo e eu desvaneci. Senti meus pés suando, assim como minhas mãos. Forçava minha mente para não gaguejar. Ela entrou como uma deusa-ninfa. Uma ninfa com pouco mais de dez anos de idade, e com uma presença de espírito de uma deusa. Absorvia todos os meus olhares e todas as outras meninas e meninos que monitoro para o coro também foram absorvidos. Eles – meninos e meninas – passam por mim durante dois meses até entrarem no coro infantil. E ela agora ficaria por todo este tempo sob minha tutela. Sabia que não podia ceder neste tempo, e poderia esperar o momento certo, para depois não recaírem acusações insidiosas sobre mim. Mas que nada! No primeiro dia, quando fazia o “reconhecimento” dos alunos, tomei a mão de cada um – uma desculpa para poder tocá-la e reconhecer o motivo dos meus batimentos acelerados. Quando nossas mãos se encostaram ela parou de encarar-me – o que fazia desde que entrou – e fechou os olhos; suspirou e depois continuou assim quando a soltei. Não posso precisar o tempo que ficamos de mãos dadas. Sei que foi o mínimo para que ninguém pudesse pensar qualquer coisa, e o máximo para que o relógio parasse. Consegui escutar até mesmo um violino que era tocado no outro lado do instituto.

Mas o momento acabou, só que os segundos corriam, agora, sem pressa. Eu estava em câmera lenta, e a percepção de seus olhos-amêndoas me seguindo, bastava para meu coração continuar batendo. Mas o gran finale daquele dia foi quando seus lábios se apertaram contra minha face, ao se despedir. Senti seu calor, o provável calor de seu semblante ruborizado naturalmente – ela parece não usar nenhuma maquiagem. Ao sair da sala fui obrigado a sentar-me. Continuava ouvindo a nota aguda do violino, sentindo seu leve perfume de menina-mulher. Na sua ficha não constava idade, um descuido que iria corrigir na próxima aula, mas o destino não me sorriu; tive que me ausentar por alguns dias, pois trabalho como músico e isso me obriga a viajar constantemente.

Estes dias foram sofríveis; sim, minha homossexualidade era uma farsa – voltando a minha pergunta inicial que mudara –; uma farsa montada por mim mesmo desde que nasci; desde minha infância, até o começo da adolescência. Este tempo todo foi preenchido com música: canto lírico, um pouco de violino, piano, e, há poucos meses vinha aprendendo violão.

Com o piano e com o canto lírico, mais um pouco de violino, começo meus passos na carreira de regente de coro, claro, como monitor de coros infanto-juvenis. Mas é o primeiro passo. Só que o risco desta minha mudança de pergunta, aumentava um temível fim de carreira. Isso tornar-se-ia realidade somente se tudo que minha mente sonhava, acontecesse; obviamente pensando no lado ruim da coisa. Já, se eu tivesse sorte… bem, nesse momento eu paro de pensar. Sem planos, é assim que tem que ser, e assim que será.

(fim da 1ª parte do capítulo I)

publicado na edição #7 do CLAP, em setembro de 2007

Escrito por Rômulo Mafra

17 Dezembro 2007 às 12:46 am

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