“Doze Anos”

uma novela de Rômulo Mafra

Archive for Março 2008

Fim do capítulo I

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Queria saber o motivo de o dia arrastar-se como tem se arrastado este. Deveria ter previsto isso e ocupá-lo com coisas para fazer – mas não o fiz. Deixei demais ao acaso, e agora sofro cada minuto que o relógio de parede muda o dígito; por sorte não possui ponteiro de segundos. Começo as aulas no instituto somente às quatro horas. Catarina faz parte da última turma, que entra às cinco.

E é chegada a hora. Tenho quinze minutos entre as turmas, e geralmente dou um passeio pelo instituto, que fica numa rua muito arborizada e tranqüila. Há um parque ao lado do prédio que abriga a escola de música, e onde fico tomando algumas notas, ou somente escutando o som da natureza misturado com a música que teima escapar prédio ao lado. Queria morar na casa em frente, uma mansão. Fico imaginando se ali mora alguém que goste de música. Esta pessoa, se existir, deve amar ouvir os sons longínquos e nem sempre distinguíveis que chegam até suas janelas. Eu adoraria. Sou jogado de volta à Terra por uma porta de carro se fechando. Ela está de costas, se despedindo de alguém dentro do carro vermelho. “Ela” é Catarina, e só tenho certeza quando se vira e olha direto em minha direção. O carro sai e ela caminha até mim. Minha respiração pára. Engulo em seco e quando sinto seu perfume, antes de seu toque, tenho vontade de chorar e rir ao mesmo tempo. Ela me abraça. Beija-me no rosto como fez na semana passada. Sua voz é alguma melodia clássica. Penso em Mozart, talvez. Minto, não penso em nada; somente suas palavras – perguntando se eu iria faltar mais aulas – é que preenchem o pouco espaço de ar que nos separa. Só fico alerta para meu olhar; não quero me denunciar deste jeito. Apesar de minha languidez causada por sua repentina atitude de vir falar comigo, me abraçar e beijar como se fossemos velhos conhecidos, tenho de manter a sobriedade que a hierarquia social nos implica. Respondo que não, não faltarei mais às aulas. A pergunta foi feita seriamente, subtendendo uma intimidade, pois era somente uma brincadeira sua “seriedade”. Perguntou também – não me dando chance para falar qualquer coisa além da resposta pedida – em que naipe ela iria cantar. “Minha mãe diz que sou soprano, mas eu acho que sou contralto. O que o professor acha?”. Apesar de minha aparência denotar a pouca idade que tinha, a maioria das crianças me chamava de senhor. Catarina não; chamou-me de professor, o que já era um começo. Respondi que faríamos alguns testes, “provavelmente nas próximas aulas, que você virá, estou certo? Quanto mais falta, menos tempo para você passar ao coro.” Ela arregalou os olhos com uma espécie de felicidade e disse:

– O professor sabe que eu faltei, é?

Eu me senti acuado. Sem espaço, enjaulado. Levei um segundo para começar uma resposta que, tive medo de não saber terminá-la. A garota estava jogando comigo, ou era só impressão? Sua pergunta tinha um ar de desconfiança, que foi o principal motivo de meu provável rubor e minhas palavras presas por um instante na garganta. A pergunta dela continha um “o senhor se preocupou comigo?”, ou então “o senhor se interessou por mim?”, enfatizando bem os pronomes pessoais; mas consegui responder um simples “sim, a estagiária que cuidou de vocês me falou.” Ela olhou para cima, torceu a boca com um sorriso maroto e soltou um “então tá!”. Catarina então se virou e me pegou pela mão. Disse que estava na hora da aula. Tirei rapidamente a mão, como se levasse um choque.

– Quase ia esquecendo. Na sua ficha faltou a idade.

– Ah, isso também o professor notou, é?

Mais uma vez eu era colocado contra a parede, entretanto fiz uma cara de tédio como se ela estivesse fazendo perguntas bobas. Não estava, eu sabia, mas usava a arte da dissimulação para me defender; não tenho certeza do seu funcionamento, mas a resposta dela foi lacônica:

– Doze anos.(fim da 2ª parte do capítulo I)

publicado na edição #9 do Clap, em fevereiro de 2008

Escrito por Rômulo Mafra

9 Março 2008 em 6:27 pm

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