“Doze Anos”

uma novela de Rômulo Mafra

Capítulo III

fazer um comentário »

Lá estava eu. Tinha dezessete anos na época e acabara de entrar para a faculdade de música. Meus primeiros contatos foram estritamente “pedagógicos”, vamos dizer assim. Não me envolvia de jeito nenhum com os outros alunos da minha turma. Éramos em sete rapazes e cinco moças. Elas eram todas lindas. Só uma delas não era spalla de alguma orquestra da região. Tocava contrabaixo e fiquei amigo dela. Como todos sabem, as spallas, geralmente, não são muito confiáveis. Logo soube que ela era lésbica, ou pelo menos estava tentando ser, como ela mesmo dizia. Saíamos algumas vezes juntos, íamos somente nos “barzinhos universitários” para ela poder caçar. Eu me esquivava com desculpas esfarrapadas (mas só hoje vejo como elas eram “esfarrapadas”; na época as achava convincentes), de que tinha um amor secreto entre outras. Eu, é claro, era usado por ela como isca para a aproximação de outras mulheres, mas nunca dava certo. As mulheres que chegavam queriam homem. Como eu não me sentia como tal, e como Roberta não tinha outra opção, ficávamos sempre os dois bebendo e jogando conversa fora até alta madrugada. Normalmente éramos os últimos a sair. Numa dessas ocasiões, Roberta foi dormir no meu “estúdio”, como realmente gostava de chamar minha casa, e tentei beijá-la. Tentei não, consegui beijá-la, mas em menos de um minuto depois, meu beijo foi interrompido por um empurrão de Roberta que me fez cair e bater com a cabeça. Após esta terrível cena, ela se jogou sobre mim, chorando e pedindo desculpas. Beijava-me no rosto com muita força. Então disse que estava ficando apaixonada por mim e que era melhor não nos vermos mais. Eu disse “não estou apaixonado por ti, Roberta. Só senti vontade de saber como era te beijar. Sei lá, talvez fosse tesão, não sei realmente.” Com estas minhas “delicadas” palavras, Roberta começou a chorar mais ainda. Deitou-se ao meu lado e logo adormeceu. Dormi pouco depois, enquanto acariciava seus cabelos. E eu acredito que realmente não estava apaixonado por ela. Pensei bastante sobre o assunto nos dias que se seguiram. Não nos víamos mais e ela logo pediu transferência. Imagino que foi só um tesão repentino, normal entre amigos de sexos opostos. Pelo menos era minha opinião. Continuava achando que eu era homossexual, e que um dia teria esta prova por concreto. Mas eu não procurava por isto na faculdade. O meu negócio era a música, só a música. Se algo acontecesse, iria ser como uma “fatalidade”, como a que aconteceu com a Roberta.

E neste período inteiro em que fiquei na faculdade, nada de mais estranho aconteceu. Nenhuma outra garota conseguiu chamar minha atenção como a Roberta e nenhum outro garoto tocou meu coração ou então meu tesão. Foi um mar de calmaria, que agora vira uma furiosa tempestade e eu, eu estou num bote sem colete salva-vidas. Mas eu sei nadar e espero logo logo, ser jogado no Mar do Amor e provar do gosto desta água que nos muda dos pés à cabeça.

(fim da 3ª capítulo)

publicado na edição #12 do CLAP, em junho de 2008

Escrito por Rômulo Mafra

16 Julho 2008 às 3:50 pm

Publicado em novela

Etiquetado com

Deixe uma resposta