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Capítulo IV
Como olhar nos olhos de Catarina, após ler seu e-mail? Como poderia estar na mesma sala que ela, sem poder abraçá-la com todo meu amor transbordando por ela? Sua boca parecia estar tão perto da minha em meus pensamentos, que sentia seu hálito aquecendo meus lábios sedentos por ela. Eu suspirava forte a cada imagem que se formava, e agora começava a vê-la nua; imaginar suas curvas de garota-virgem, intocada por mãos masculinas (ela não tinha nem pai!), seu provável sexo ainda não coberto pela densa folhagem que estaria por chegar. Imaginava o perfume que dali seria exalado no momento em que estivesse com ela totalmente aberta a mim. Estava me sentindo cada vez mais enrubescido com estes pensamentos. O sangue não subia só a minha cabeça, mas descia e deixava meu membro cada vez maior. A agonia que tomava conta de meu ser só possuía uma saída. Depois de rolar pela cama por alguns minutos, sentindo como se meu colchão fosse a pele sedosa de Catarina, fui aliviar-me no banheiro; jorrei cada gota em homenagem à Catarina; cada toque, retração de minhas mãos, era o toque das mãos delicadas dela. Meu tremor no momento do gozo era o tremor de nossos corpos unidos. Depois disso, a água do chuveiro trazia o frescor que ela me traria com seus abraços ternos após o ato consumado. Queria escrever isso à Catarina. Tenho certeza que ela amaria ler linhas como estas. Tenho certeza de que Catarina tomaria como um tributo de um homem a sua musa; a sua Terpsícore, ou talvez Erato, mais apropriada ao momento. Mas esta minha certeza era uma certeza de apaixonado. Aquela certeza que nunca é uma certeza; é somente um desejo tão forte que nos faz crer impotentes para duvidarmos de nós mesmos, só que tudo isso no campo do pensamento. Na ação é outra história. Mas basta sermos felizes na nossa mente, pelo tempo que for. O resto é conseqüência do que o destino nos reserva.
Eis a resposta de Catarina: “Amores impossíveis? Eu adoro amores impossíveis. Sei que o destino me reserva um amor deste tipo. E creio que ficarei feliz se, um dia, tiver alguém para amar e este amor, em conseqüência de sua impossibilidade, não for consumado. Mas não pense que ficarei impassível vendo o Amor passar na frente de meus olhos sem lutar para que ele se consuma. Penso é que os ‘amores impossíveis’ são feitos para que os tornemos o mais possível. O que não devemos fazer é nos relegar ao papel de simples espectadores. A luta deve acontecer. Mas voltando ao livro que você cita, pelo que procurei na internet, imagino que seja Orlando. Vou procurá-lo na biblioteca aqui de casa, mas se não achar a obra, você me empresta, né?
“Bem, sobre indicar algum livro, o que você acha de As Relações Perigosas, de Laclos? Eu achei um livro bem interessante mesmo! Se não me engano, aquele filme, Ligações Perigosas, com a Michelle Pfeiffer, foi baseado neste livro. Conta os ‘bastidores’ da Corte Francesa do século XVIII, todo escrito à base de cartas, que, segundo Laclos, foram reais!
“Ah, você não sabe como fiquei feliz quando li que suas pretensões em nossa relação não são somente de ordem músico-pedagógicas! Sabe, na minha idade é difícil conseguir pessoas inteligentes para uma boa discussão. Minha mãe, consigo algumas boas conversas sobre literatura, música etc., mas ela nem sempre está disponível. Viaja muito por causa de seu trabalho. Tenho alguns bons amigos pela internet, mas não são suficientes. Quero um amigo próximo, aqui da cidade mesmo, com quem possa dialogar em todos os sentidos sobre vários assuntos. Espero que você possa ser este amigo, e também espero não estar sendo pretensiosa demais. Sei que você deve ter seus amigos, sua vida pessoal. O que eu peço é somente que me deixe ser mais uma pessoa na sua vida. Caso não seja possível, me tenha, pelo menos, como uma aluna dedicada.
“Nem preciso dizer que amei a sua comparação de nossos e-mails com as cartas que os escritores trocavam antigamente. Quem sabe, algum dia, estas nossas missivas façam parte de alguma coletânea, caso nos tornemos pessoas importantes no mundo da literatura ou da música? Como sabemos, tudo pode acontecer, basta querermos com toda a nossa força!”
Como resistir a esta mulher? Não preciso, obviamente, grifar as palavras e frases que Catarina me relatou nesta mensagem. Agora estou mesmo perdido. Não possuo mais saídas; não tenho mais onde me agarrar antes de ser arrastado para o redemoinho que pode ser minha derrocada ou, então, minha sublime ascensão ao céu da purificação e do amor. A força centrípeta que me puxa é impossível de se lutar. A questão agora é: como cair de quatro por Catarina? Como chegar a seu coração sem que o meu se desfaça? E sem que a minha vida se desfaça por esta loucura que pretendo cometer?
Bem, a luta me espera. O fundo deste redemoinho já deve estar na sala me esperando. Agarro-me a esperança de ainda postergar um pouco mais este fim a que pretendo chegar. Minha única perspectiva é dissimular para tentar durar um pouco mais, e é o que farei.
(fim da 4ª capítulo)
publicado na edição #13 do CLAP, em julho de 2008