“Doze Anos”

uma novela de Rômulo Mafra

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Capítulo II

sem comentários

Num e-mail ela conseguiu destruir todas as minhas defesas, construídas com muito trabalho nestes meus 23 anos de vida. Em doces frases escritas com uma simplicidade que só uma adolescente conseguiria – uma adolescente inteligentíssima, é bom frisar. Poucos conseguem argumentar tão bem e tão profundamente como ela o fez; foi de deixar qualquer escritor iniciante de boca aberta. Ou talvez não fosse nada disso. Talvez fosse a paixão avassaladora (e toda paixão não é avassaladora?) que tomava conta de minha alma. Ela falava sobre metafísica como quem fala da novidade do momento. Citava alguns poetas desconhecidos para mim. Talvez fossem novos poetas, mas a poesia não estava na minha lista de prioridades nos últimos meses. Catarina falou principalmente sobre o ser humano, sobre a vida como ela é, como ela não deveria ser. Afirmava veementemente que “tudo está assim porque é para estar assim. As coisas não acontecem ao acaso, e que o acaso só existe (se é que ele existe) para surpreender os homens. Então nós devemos aproveitar a vida com o que ela nos oferece de melhor.” Só para citar um trecho de suas idéias. Reli algumas vezes sua correspondência eletrônica, continuando perplexo com sua possível (assim espero eu) objetividade. “Olá professor Joaquim [este é meu nome], aqui estou eu mandando este primeiro e-mail. Espero realmente que possamos usar este canal de comunicação [sim, Catarina usou estes termos!] para nos falarmos enquanto não estivermos no instituto. (…) Quero deixar claro que suas aulas são ótimas, e sinto que sua preparação é até mais do que necessária, é imprescindível. Como não conversamos lá, podemos divagar por aqui, certo? Um beijo de sua querida (e diga ao contrário, hihihihi) aluninha, Catarina.”

Tentei lhe responder do melhor jeito possível, mas não tinha como ficar impassível diante desta missiva tão bem elaborada! A resposta tinha que ser à altura, já que eu era o professor dela, oras! “Olá senhorita Catarina, espero que tudo esteja bem contigo. Também espero que possamos usar deste meio para podermos conversar, principalmente sobre a música, arte que nos une neste momento de nossas vidas. Com isso, também espero incentivá-la (se é que já não o faz) a ouvir grandes músicos e dar dicas de outros estilos musicais que só podem nos engrandecer. Tenho certeza de seu bom gosto para isto. Também posso te passar alguns sites para baixar músicas (caso não saibas, é claro). E muito obrigado pelo elogio a minha aula e minha didática. É sempre bom saber que o professor está fazendo tão bem a sua aluna. Um beijo na (com certeza hehehehe) querida aluna. Joaquim.” Não tenha dúvidas que cada palavra escrita foi medida exatamente. Pensei duas, três vezes, no que escrevia. Tirei frases que poderiam dar um duplo sentido, porém deixei algumas dicas (acho que bem óbvias) como “bom saber que o professor está fazendo tão bem a sua aluna”. Entretanto, pensava ter dissimulado bem no “usar deste meio para podermos conversar, principalmente sobre a música”, mas na sua resposta seguinte, percebi que foi em vão: “Como vai, querido professor! Eu vou muito bem, obrigado! Só senti falta das suas aulas neste fim de semana. Mas espero que o professor esteja bem (principalmente por ter estado longe de mim hihihihi)! E queria agradecer o ‘senhorita’. Adoro realmente estas palavras bonitas da nossa língua. Sabe, sou uma devoradora de livros e adoro a literatura do século retrasado, principalmente a francesa. Meu pai me deixou uma enorme biblioteca, e inclusive, ano passado, achei alguns livros ‘secretos’ escondidos. Só que são ótimas literaturas e não sei o motivo de tanto segredo para tais obras. Qualquer dia posso emprestar-lhe alguma, se assim o professor desejar. Espero que o professor não fique chateado por eu não me ater ao assunto que desejas. Poderemos (e devemos) falar mais sobre música, agora que temos a internet a nosso favor, certo?

“Realmente, tenho que lhe dizer que adorei seu jeito de escrever. Sabe, é perfeito. Senti-me como que recebendo uma carta no fim do século XVIII. E espero que, além de outras coisas e a música, a literatura também nos una, pois me parece que és um ávido leitor. Digo isso pela sua correta gramática. Ai, espero não estar sendo chata. Por estes e outros motivos, tenho poucos amigos. Sou muito estudiosa. Gosto de ficar em casa lendo, ouvindo música. Neste momento ouço Chopin (viu, você estava certo sobre meu gosto musical, pois é tão apurado quanto meu gosto por leitura); ah, como não houve reclamações, vou chamá-lo de ‘você’ hihihihih.”

Daí em diante, algumas divagações sobre metafísica, como havia já comentado, ao dizer que tudo nos une, por sermos humanos, por termos esta afinidade musical e literária (citou alguns autores, livros, ao qual já me referi), e que tudo no mundo está interligado etc.

Está resposta foi recebida no sábado. Deixei para responder somente no domingo. O primeiro e-mail veio na sexta, respondido prontamente, ainda antes da meia-noite. Dei-lhe meu endereço eletrônico na mesma sexta-feira, após a aula. Claro que relutei um pouco, porém, somente para disfarçar minha alegria.

Fora a segunda aula que dava a Catarina nesta semana que se passou, mas no primeiro dia em que nos encontramos, no dia da praça que recebi seu segundo beijo no rosto (penso que isso ficará marcado pra sempre na minha memória), ela fora um anjo em sala. Fez tudo que lhe pedi, exercícios vocais etc. Para mim, estávamos somente eu e Catarina naquela sala. Todos eram invisíveis, ou eram feitos de pouca matéria, pois os via somente de relance. Claro que isso só percebo depois, já que dei minha aula como sempre: com a dedicação que um aluno deve merecer de seu professor. E todos ali dentro mereciam esta minha dedicação. Mas só Catarina merecia meu coração a pulsar forte dentro de mim. Só ela merecia meus pensamentos vagos sobre nosso futuro. Agora já sabia que ela estava com doze anos. Faria treze dali uns meses, uma notícia que me agradou, devido as minhas claras intenções possíveis. Infelizmente naquele dia, uma quarta-feira, Catarina teve que se ausentar um pouco mais cedo. Por compromissos de sua mãe, a moça da secretaria veio pedir para liberá-la cinco minutos antes do fim da aula. Liberei-a, não sem sentir uma dor aguda no peito, pois queria mais tempo com ela, mas era-me impossível não fazer tudo que ela quisesse; mesmo que fosse sua mãe que pedisse. O que trás outro assunto. Na sexta, consegui ver a mãe de Catarina. Fiquei no segundo andar, esperando o tal carro vermelho chegar. E quando chegou, consegui avistá-la, ainda que não muito bem por causa do vidro um tanto escuro do carro. Parecia realmente uma mulher bonita. Tinha a beleza da filha. Vestia-se muitíssimo bem num tailleur possivelmente verde, e estava com uma saia da mesma cor. Não parecia ter mais que trinta anos. Claro que, futuramente, tentarei vê-la melhor.

A resposta àquela segunda mensagem de Catarina me tomou boa parte do domingo. Certamente tenho que voltar ao assunto, pois depois de tal empresa, não poderia privá-los de tal coisa. Tentei me resumir ao máximo possível, mas como disse no começo desta segunda parte, ela destruiu todas as minhas defesas, e fiquei quase sem saída, não fosse minha boa retórica. Eis a resposta:

“Estou bem, senhorita Catarina (melhorou? teu nome é muito bonito para desperdiçar somente com pronomes hehehehehe). E grato também por sentir falta da minha aula.

“Também sou um amante da literatura, mas devo confessar que já fui mais assíduo das páginas de (bons) livros. O último que li foi um da Virgínia Woolf que agora me escapa o nome. Um livro muito interessante, que fala de um amor impossível. Depois lhe passo o nome da obra. E é claro que podemos trocar livros. Podes me indicar algum que aches interessante e lhe ficarei muito grato.

“Como disseste que ouvias Chopin, em sua homenagem, coloquei-o para tocar enquanto lhe respondia; e é claro que não fiquei ‘chateado’ por fugires do assunto da música. Não era só o que pretendia correspondendo-me contigo ou com outros alunos. A troca de informações é sempre benéfica para ambos os lados, concordas? E também nunca te acharia ‘chata’ por elogiares minha gramática, como fizestes, pelo contrário, é bom saber que ainda existe pessoas que apreciam a boa escrita. E também é bom poder escrever assim; devo dizer que também sinto-me como no século XVIII ou meados do século XX, quando era comum os escritores e artistas se corresponderem para falarem de seus trabalhos.

“Obviamente que podes me chamar de ‘você’, sem problema algum.”

Após essa parte, tentei ser mais breve ainda, principalmente à parte metafísica da missiva. Ali era um campo perigoso para se divagar neste momento em que minhas muralhas estão desguarnecidas (se é que um dia estiveram guarnecidas).

A segunda-feira se aproximava, portanto, só leria sua resposta amanhã, horas antes de vê-la. Deixarei para responder após este nosso novo encontro.

(fim da 2ª capítulo I)

publicado na edição #10 e #11 do CLAP, em março e abril de 2008

Escrito por Rômulo Mafra

4 Junho 2008 em 12:56 am

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