“Doze Anos”

uma novela de Rômulo Mafra

Capítulo IV

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Como olhar nos olhos de Catarina, após ler seu e-mail? Como poderia estar na mesma sala que ela, sem poder abraçá-la com todo meu amor transbordando por ela? Sua boca parecia estar tão perto da minha em meus pensamentos, que sentia seu hálito aquecendo meus lábios sedentos por ela. Eu suspirava forte a cada imagem que se formava, e agora começava a vê-la nua; imaginar suas curvas de garota-virgem, intocada por mãos masculinas (ela não tinha nem pai!), seu provável sexo ainda não coberto pela densa folhagem que estaria por chegar. Imaginava o perfume que dali seria exalado no momento em que estivesse com ela totalmente aberta a mim. Estava me sentindo cada vez mais enrubescido com estes pensamentos. O sangue não subia só a minha cabeça, mas descia e deixava meu membro cada vez maior. A agonia que tomava conta de meu ser só possuía uma saída. Depois de rolar pela cama por alguns minutos, sentindo como se meu colchão fosse a pele sedosa de Catarina, fui aliviar-me no banheiro; jorrei cada gota em homenagem à Catarina; cada toque, retração de minhas mãos, era o toque das mãos delicadas dela. Meu tremor no momento do gozo era o tremor de nossos corpos unidos. Depois disso, a água do chuveiro trazia o frescor que ela me traria com seus abraços ternos após o ato consumado. Queria escrever isso à Catarina. Tenho certeza que ela amaria ler linhas como estas. Tenho certeza de que Catarina tomaria como um tributo de um homem a sua musa; a sua Terpsícore, ou talvez Erato, mais apropriada ao momento. Mas esta minha certeza era uma certeza de apaixonado. Aquela certeza que nunca é uma certeza; é somente um desejo tão forte que nos faz crer impotentes para duvidarmos de nós mesmos, só que tudo isso no campo do pensamento. Na ação é outra história. Mas basta sermos felizes na nossa mente, pelo tempo que for. O resto é conseqüência do que o destino nos reserva.

Eis a resposta de Catarina: “Amores impossíveis? Eu adoro amores impossíveis. Sei que o destino me reserva um amor deste tipo. E creio que ficarei feliz se, um dia, tiver alguém para amar e este amor, em conseqüência de sua impossibilidade, não for consumado. Mas não pense que ficarei impassível vendo o Amor passar na frente de meus olhos sem lutar para que ele se consuma. Penso é que os ‘amores impossíveis’ são feitos para que os tornemos o mais possível. O que não devemos fazer é nos relegar ao papel de simples espectadores. A luta deve acontecer. Mas voltando ao livro que você cita, pelo que procurei na internet, imagino que seja Orlando. Vou procurá-lo na biblioteca aqui de casa, mas se não achar a obra, você me empresta, né?
“Bem, sobre indicar algum livro, o que você acha de As Relações Perigosas, de Laclos? Eu achei um livro bem interessante mesmo! Se não me engano, aquele filme, Ligações Perigosas, com a Michelle Pfeiffer, foi baseado neste livro. Conta os ‘bastidores’ da Corte Francesa do século XVIII, todo escrito à base de cartas, que, segundo Laclos, foram reais!
“Ah, você não sabe como fiquei feliz quando li que suas pretensões em nossa relação não são somente de ordem músico-pedagógicas! Sabe, na minha idade é difícil conseguir pessoas inteligentes para uma boa discussão. Minha mãe, consigo algumas boas conversas sobre literatura, música etc., mas ela nem sempre está disponível. Viaja muito por causa de seu trabalho. Tenho alguns bons amigos pela internet, mas não são suficientes. Quero um amigo próximo, aqui da cidade mesmo, com quem possa dialogar em todos os sentidos sobre vários assuntos. Espero que você possa ser este amigo, e também espero não estar sendo pretensiosa demais. Sei que você deve ter seus amigos, sua vida pessoal. O que eu peço é somente que me deixe ser mais uma pessoa na sua vida. Caso não seja possível, me tenha, pelo menos, como uma aluna dedicada.
“Nem preciso dizer que amei a sua comparação de nossos e-mails com as cartas que os escritores trocavam antigamente. Quem sabe, algum dia, estas nossas missivas façam parte de alguma coletânea, caso nos tornemos pessoas importantes no mundo da literatura ou da música? Como sabemos, tudo pode acontecer, basta querermos com toda a nossa força!”

Como resistir a esta mulher? Não preciso, obviamente, grifar as palavras e frases que Catarina me relatou nesta mensagem. Agora estou mesmo perdido. Não possuo mais saídas; não tenho mais onde me agarrar antes de ser arrastado para o redemoinho que pode ser minha derrocada ou, então, minha sublime ascensão ao céu da purificação e do amor. A força centrípeta que me puxa é impossível de se lutar. A questão agora é: como cair de quatro por Catarina? Como chegar a seu coração sem que o meu se desfaça? E sem que a minha vida se desfaça por esta loucura que pretendo cometer?
Bem, a luta me espera. O fundo deste redemoinho já deve estar na sala me esperando. Agarro-me a esperança de ainda postergar um pouco mais este fim a que pretendo chegar. Minha única perspectiva é dissimular para tentar durar um pouco mais, e é o que farei.

(fim da 4ª capítulo)

publicado na edição #13 do CLAP, em julho de 2008

Written by Rômulo Mafra

19 setembro 2008 at 3:34 pm

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Capítulo III

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Lá estava eu. Tinha dezessete anos na época e acabara de entrar para a faculdade de música. Meus primeiros contatos foram estritamente “pedagógicos”, vamos dizer assim. Não me envolvia de jeito nenhum com os outros alunos da minha turma. Éramos em sete rapazes e cinco moças. Elas eram todas lindas. Só uma delas não era spalla de alguma orquestra da região. Tocava contrabaixo e fiquei amigo dela. Como todos sabem, as spallas, geralmente, não são muito confiáveis. Logo soube que ela era lésbica, ou pelo menos estava tentando ser, como ela mesmo dizia. Saíamos algumas vezes juntos, íamos somente nos “barzinhos universitários” para ela poder caçar. Eu me esquivava com desculpas esfarrapadas (mas só hoje vejo como elas eram “esfarrapadas”; na época as achava convincentes), de que tinha um amor secreto entre outras. Eu, é claro, era usado por ela como isca para a aproximação de outras mulheres, mas nunca dava certo. As mulheres que chegavam queriam homem. Como eu não me sentia como tal, e como Roberta não tinha outra opção, ficávamos sempre os dois bebendo e jogando conversa fora até alta madrugada. Normalmente éramos os últimos a sair. Numa dessas ocasiões, Roberta foi dormir no meu “estúdio”, como realmente gostava de chamar minha casa, e tentei beijá-la. Tentei não, consegui beijá-la, mas em menos de um minuto depois, meu beijo foi interrompido por um empurrão de Roberta que me fez cair e bater com a cabeça. Após esta terrível cena, ela se jogou sobre mim, chorando e pedindo desculpas. Beijava-me no rosto com muita força. Então disse que estava ficando apaixonada por mim e que era melhor não nos vermos mais. Eu disse “não estou apaixonado por ti, Roberta. Só senti vontade de saber como era te beijar. Sei lá, talvez fosse tesão, não sei realmente.” Com estas minhas “delicadas” palavras, Roberta começou a chorar mais ainda. Deitou-se ao meu lado e logo adormeceu. Dormi pouco depois, enquanto acariciava seus cabelos. E eu acredito que realmente não estava apaixonado por ela. Pensei bastante sobre o assunto nos dias que se seguiram. Não nos víamos mais e ela logo pediu transferência. Imagino que foi só um tesão repentino, normal entre amigos de sexos opostos. Pelo menos era minha opinião. Continuava achando que eu era homossexual, e que um dia teria esta prova por concreto. Mas eu não procurava por isto na faculdade. O meu negócio era a música, só a música. Se algo acontecesse, iria ser como uma “fatalidade”, como a que aconteceu com a Roberta.

E neste período inteiro em que fiquei na faculdade, nada de mais estranho aconteceu. Nenhuma outra garota conseguiu chamar minha atenção como a Roberta e nenhum outro garoto tocou meu coração ou então meu tesão. Foi um mar de calmaria, que agora vira uma furiosa tempestade e eu, eu estou num bote sem colete salva-vidas. Mas eu sei nadar e espero logo logo, ser jogado no Mar do Amor e provar do gosto desta água que nos muda dos pés à cabeça.

(fim da 3ª capítulo)

publicado na edição #12 do CLAP, em junho de 2008

Written by Rômulo Mafra

16 julho 2008 at 3:50 pm

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Capítulo II

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Num e-mail ela conseguiu destruir todas as minhas defesas, construídas com muito trabalho nestes meus 23 anos de vida. Em doces frases escritas com uma simplicidade que só uma adolescente conseguiria – uma adolescente inteligentíssima, é bom frisar. Poucos conseguem argumentar tão bem e tão profundamente como ela o fez; foi de deixar qualquer escritor iniciante de boca aberta. Ou talvez não fosse nada disso. Talvez fosse a paixão avassaladora (e toda paixão não é avassaladora?) que tomava conta de minha alma. Ela falava sobre metafísica como quem fala da novidade do momento. Citava alguns poetas desconhecidos para mim. Talvez fossem novos poetas, mas a poesia não estava na minha lista de prioridades nos últimos meses. Catarina falou principalmente sobre o ser humano, sobre a vida como ela é, como ela não deveria ser. Afirmava veementemente que “tudo está assim porque é para estar assim. As coisas não acontecem ao acaso, e que o acaso só existe (se é que ele existe) para surpreender os homens. Então nós devemos aproveitar a vida com o que ela nos oferece de melhor.” Só para citar um trecho de suas idéias. Reli algumas vezes sua correspondência eletrônica, continuando perplexo com sua possível (assim espero eu) objetividade. “Olá professor Joaquim [este é meu nome], aqui estou eu mandando este primeiro e-mail. Espero realmente que possamos usar este canal de comunicação [sim, Catarina usou estes termos!] para nos falarmos enquanto não estivermos no instituto. (…) Quero deixar claro que suas aulas são ótimas, e sinto que sua preparação é até mais do que necessária, é imprescindível. Como não conversamos lá, podemos divagar por aqui, certo? Um beijo de sua querida (e diga ao contrário, hihihihi) aluninha, Catarina.”

Tentei lhe responder do melhor jeito possível, mas não tinha como ficar impassível diante desta missiva tão bem elaborada! A resposta tinha que ser à altura, já que eu era o professor dela, oras! “Olá senhorita Catarina, espero que tudo esteja bem contigo. Também espero que possamos usar deste meio para podermos conversar, principalmente sobre a música, arte que nos une neste momento de nossas vidas. Com isso, também espero incentivá-la (se é que já não o faz) a ouvir grandes músicos e dar dicas de outros estilos musicais que só podem nos engrandecer. Tenho certeza de seu bom gosto para isto. Também posso te passar alguns sites para baixar músicas (caso não saibas, é claro). E muito obrigado pelo elogio a minha aula e minha didática. É sempre bom saber que o professor está fazendo tão bem a sua aluna. Um beijo na (com certeza hehehehe) querida aluna. Joaquim.” Não tenha dúvidas que cada palavra escrita foi medida exatamente. Pensei duas, três vezes, no que escrevia. Tirei frases que poderiam dar um duplo sentido, porém deixei algumas dicas (acho que bem óbvias) como “bom saber que o professor está fazendo tão bem a sua aluna”. Entretanto, pensava ter dissimulado bem no “usar deste meio para podermos conversar, principalmente sobre a música”, mas na sua resposta seguinte, percebi que foi em vão: “Como vai, querido professor! Eu vou muito bem, obrigado! Só senti falta das suas aulas neste fim de semana. Mas espero que o professor esteja bem (principalmente por ter estado longe de mim hihihihi)! E queria agradecer o ‘senhorita’. Adoro realmente estas palavras bonitas da nossa língua. Sabe, sou uma devoradora de livros e adoro a literatura do século retrasado, principalmente a francesa. Meu pai me deixou uma enorme biblioteca, e inclusive, ano passado, achei alguns livros ‘secretos’ escondidos. Só que são ótimas literaturas e não sei o motivo de tanto segredo para tais obras. Qualquer dia posso emprestar-lhe alguma, se assim o professor desejar. Espero que o professor não fique chateado por eu não me ater ao assunto que desejas. Poderemos (e devemos) falar mais sobre música, agora que temos a internet a nosso favor, certo?

“Realmente, tenho que lhe dizer que adorei seu jeito de escrever. Sabe, é perfeito. Senti-me como que recebendo uma carta no fim do século XVIII. E espero que, além de outras coisas e a música, a literatura também nos una, pois me parece que és um ávido leitor. Digo isso pela sua correta gramática. Ai, espero não estar sendo chata. Por estes e outros motivos, tenho poucos amigos. Sou muito estudiosa. Gosto de ficar em casa lendo, ouvindo música. Neste momento ouço Chopin (viu, você estava certo sobre meu gosto musical, pois é tão apurado quanto meu gosto por leitura); ah, como não houve reclamações, vou chamá-lo de ‘você’ hihihihih.”

Daí em diante, algumas divagações sobre metafísica, como havia já comentado, ao dizer que tudo nos une, por sermos humanos, por termos esta afinidade musical e literária (citou alguns autores, livros, ao qual já me referi), e que tudo no mundo está interligado etc.

Está resposta foi recebida no sábado. Deixei para responder somente no domingo. O primeiro e-mail veio na sexta, respondido prontamente, ainda antes da meia-noite. Dei-lhe meu endereço eletrônico na mesma sexta-feira, após a aula. Claro que relutei um pouco, porém, somente para disfarçar minha alegria.

Fora a segunda aula que dava a Catarina nesta semana que se passou, mas no primeiro dia em que nos encontramos, no dia da praça que recebi seu segundo beijo no rosto (penso que isso ficará marcado pra sempre na minha memória), ela fora um anjo em sala. Fez tudo que lhe pedi, exercícios vocais etc. Para mim, estávamos somente eu e Catarina naquela sala. Todos eram invisíveis, ou eram feitos de pouca matéria, pois os via somente de relance. Claro que isso só percebo depois, já que dei minha aula como sempre: com a dedicação que um aluno deve merecer de seu professor. E todos ali dentro mereciam esta minha dedicação. Mas só Catarina merecia meu coração a pulsar forte dentro de mim. Só ela merecia meus pensamentos vagos sobre nosso futuro. Agora já sabia que ela estava com doze anos. Faria treze dali uns meses, uma notícia que me agradou, devido as minhas claras intenções possíveis. Infelizmente naquele dia, uma quarta-feira, Catarina teve que se ausentar um pouco mais cedo. Por compromissos de sua mãe, a moça da secretaria veio pedir para liberá-la cinco minutos antes do fim da aula. Liberei-a, não sem sentir uma dor aguda no peito, pois queria mais tempo com ela, mas era-me impossível não fazer tudo que ela quisesse; mesmo que fosse sua mãe que pedisse. O que trás outro assunto. Na sexta, consegui ver a mãe de Catarina. Fiquei no segundo andar, esperando o tal carro vermelho chegar. E quando chegou, consegui avistá-la, ainda que não muito bem por causa do vidro um tanto escuro do carro. Parecia realmente uma mulher bonita. Tinha a beleza da filha. Vestia-se muitíssimo bem num tailleur possivelmente verde, e estava com uma saia da mesma cor. Não parecia ter mais que trinta anos. Claro que, futuramente, tentarei vê-la melhor.

A resposta àquela segunda mensagem de Catarina me tomou boa parte do domingo. Certamente tenho que voltar ao assunto, pois depois de tal empresa, não poderia privá-los de tal coisa. Tentei me resumir ao máximo possível, mas como disse no começo desta segunda parte, ela destruiu todas as minhas defesas, e fiquei quase sem saída, não fosse minha boa retórica. Eis a resposta:

“Estou bem, senhorita Catarina (melhorou? teu nome é muito bonito para desperdiçar somente com pronomes hehehehehe). E grato também por sentir falta da minha aula.

“Também sou um amante da literatura, mas devo confessar que já fui mais assíduo das páginas de (bons) livros. O último que li foi um da Virgínia Woolf que agora me escapa o nome. Um livro muito interessante, que fala de um amor impossível. Depois lhe passo o nome da obra. E é claro que podemos trocar livros. Podes me indicar algum que aches interessante e lhe ficarei muito grato.

“Como disseste que ouvias Chopin, em sua homenagem, coloquei-o para tocar enquanto lhe respondia; e é claro que não fiquei ‘chateado’ por fugires do assunto da música. Não era só o que pretendia correspondendo-me contigo ou com outros alunos. A troca de informações é sempre benéfica para ambos os lados, concordas? E também nunca te acharia ‘chata’ por elogiares minha gramática, como fizestes, pelo contrário, é bom saber que ainda existe pessoas que apreciam a boa escrita. E também é bom poder escrever assim; devo dizer que também sinto-me como no século XVIII ou meados do século XX, quando era comum os escritores e artistas se corresponderem para falarem de seus trabalhos.

“Obviamente que podes me chamar de ‘você’, sem problema algum.”

Após essa parte, tentei ser mais breve ainda, principalmente à parte metafísica da missiva. Ali era um campo perigoso para se divagar neste momento em que minhas muralhas estão desguarnecidas (se é que um dia estiveram guarnecidas).

A segunda-feira se aproximava, portanto, só leria sua resposta amanhã, horas antes de vê-la. Deixarei para responder após este nosso novo encontro.

(fim da 2ª capítulo I)

publicado na edição #10 e #11 do CLAP, em março e abril de 2008

Written by Rômulo Mafra

4 junho 2008 at 12:56 am

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Fim do capítulo I

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Queria saber o motivo de o dia arrastar-se como tem se arrastado este. Deveria ter previsto isso e ocupá-lo com coisas para fazer – mas não o fiz. Deixei demais ao acaso, e agora sofro cada minuto que o relógio de parede muda o dígito; por sorte não possui ponteiro de segundos. Começo as aulas no instituto somente às quatro horas. Catarina faz parte da última turma, que entra às cinco.

E é chegada a hora. Tenho quinze minutos entre as turmas, e geralmente dou um passeio pelo instituto, que fica numa rua muito arborizada e tranqüila. Há um parque ao lado do prédio que abriga a escola de música, e onde fico tomando algumas notas, ou somente escutando o som da natureza misturado com a música que teima escapar prédio ao lado. Queria morar na casa em frente, uma mansão. Fico imaginando se ali mora alguém que goste de música. Esta pessoa, se existir, deve amar ouvir os sons longínquos e nem sempre distinguíveis que chegam até suas janelas. Eu adoraria. Sou jogado de volta à Terra por uma porta de carro se fechando. Ela está de costas, se despedindo de alguém dentro do carro vermelho. “Ela” é Catarina, e só tenho certeza quando se vira e olha direto em minha direção. O carro sai e ela caminha até mim. Minha respiração pára. Engulo em seco e quando sinto seu perfume, antes de seu toque, tenho vontade de chorar e rir ao mesmo tempo. Ela me abraça. Beija-me no rosto como fez na semana passada. Sua voz é alguma melodia clássica. Penso em Mozart, talvez. Minto, não penso em nada; somente suas palavras – perguntando se eu iria faltar mais aulas – é que preenchem o pouco espaço de ar que nos separa. Só fico alerta para meu olhar; não quero me denunciar deste jeito. Apesar de minha languidez causada por sua repentina atitude de vir falar comigo, me abraçar e beijar como se fossemos velhos conhecidos, tenho de manter a sobriedade que a hierarquia social nos implica. Respondo que não, não faltarei mais às aulas. A pergunta foi feita seriamente, subtendendo uma intimidade, pois era somente uma brincadeira sua “seriedade”. Perguntou também – não me dando chance para falar qualquer coisa além da resposta pedida – em que naipe ela iria cantar. “Minha mãe diz que sou soprano, mas eu acho que sou contralto. O que o professor acha?”. Apesar de minha aparência denotar a pouca idade que tinha, a maioria das crianças me chamava de senhor. Catarina não; chamou-me de professor, o que já era um começo. Respondi que faríamos alguns testes, “provavelmente nas próximas aulas, que você virá, estou certo? Quanto mais falta, menos tempo para você passar ao coro.” Ela arregalou os olhos com uma espécie de felicidade e disse:

– O professor sabe que eu faltei, é?

Eu me senti acuado. Sem espaço, enjaulado. Levei um segundo para começar uma resposta que, tive medo de não saber terminá-la. A garota estava jogando comigo, ou era só impressão? Sua pergunta tinha um ar de desconfiança, que foi o principal motivo de meu provável rubor e minhas palavras presas por um instante na garganta. A pergunta dela continha um “o senhor se preocupou comigo?”, ou então “o senhor se interessou por mim?”, enfatizando bem os pronomes pessoais; mas consegui responder um simples “sim, a estagiária que cuidou de vocês me falou.” Ela olhou para cima, torceu a boca com um sorriso maroto e soltou um “então tá!”. Catarina então se virou e me pegou pela mão. Disse que estava na hora da aula. Tirei rapidamente a mão, como se levasse um choque.

– Quase ia esquecendo. Na sua ficha faltou a idade.

– Ah, isso também o professor notou, é?

Mais uma vez eu era colocado contra a parede, entretanto fiz uma cara de tédio como se ela estivesse fazendo perguntas bobas. Não estava, eu sabia, mas usava a arte da dissimulação para me defender; não tenho certeza do seu funcionamento, mas a resposta dela foi lacônica:

– Doze anos.(fim da 2ª parte do capítulo I)

publicado na edição #9 do Clap, em fevereiro de 2008

Written by Rômulo Mafra

9 março 2008 at 6:27 pm

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2ª parte do capítulo I

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Este foi o primeiro dia de aula que dei após minha volta e, novamente o destino não me sorriu. Catarina (era seu nome) faltou. Perguntei para a garota que ficara no meu lugar se a “menina” que faltara hoje não tinha mais vindo. Ela me respondeu não, ela veio, e inclusive perguntou o motivo de o professor não ter vindo. Eu queria saber se eram exatamente aquelas suas palavras, mas não poderia levantar suspeitas. “Professor?”. Ela poderia ter me chamado de outra coisa – “moço” eu já ficaria feliz –, já que eu aparento cerca de dezoito anos. Mas tive que ficar sem esta resposta. A outra pergunta que me perseguia nestes últimos dias, também continuou sem resposta. A garota que me substituiu não fazia menor idéia da idade desta “menina” (que agora já sei). Claro que dissimulei o máximo que pude, fazendo alusão à falta de idade – a única da turma, enfatizei – em sua ficha. Fiquei algum tempo na sala, depois que a substituta saiu. Tentei captar o espírito de Catarina (grande até no nome, viajava com meus pensamentos) naquela sala. Espírito que mudou minha vida, mudou meu modo de me ver, meu modo de ver as pessoas. O mundo possuía agora outras cores nunca antes captada pelos meus olhos. A própria música, minha paixão, assumia outra proporção, pois por causa dela, conheci Catarina. Abençoei meus pais por terem incitado este amor dentro de mim desde o útero de minha mãe. Até pensei em voltar à universidade para terminar minha faculdade de música. Tranquei o último período para me aprofundar em alguns estudos de piano, e também aproveitei para colocar minha leitura em dia, além de aprender a tocar violão. Claro que meus pais não ficaram muito felizes com a idéia, mas eu sou emancipado há anos. Com dezesseis, após completar o segundo grau, fui morar próximo ao instituto, arranjei um emprego no centro da cidade e à noite estudava música no instituto. Fiquei um ano assim, me preparando para o vestibular. Foi um ano de “descanso” da chatice do colégio. Mesmo achando tudo aquilo um saco, sempre fui um aluno nota dez; tinha facilidade enorme em apreender as coisas, e tenho até hoje; talvez por este motivo nunca gostei de ficar trancado dentro da sala de aula ouvindo o que já sabia, ou escutando repetições inúteis para mim.

Hoje já pago todas as minhas despesas e, em gratidão, meus pais me deram de aniversário de vinte anos, um tipo de estúdio, onde passei a morar a partir de então. É uma sala enorme, com divisória apenas para o banheiro, como os estúdios parisienses e nova-iorquinos, onde os artistas moram no mesmo local onde compõem sua arte. Algumas poucas divisórias fizeram de um galpão, meu lar e meu ambiente de estudos.

Tenho agora dois dias para revê-la, Catarina, e conto as horas para este momento. Fico feliz também por já ter um mote para nossa conversa, que será após o fim da aula (o planejamento é impossível não acontecer), pois preciso saber por quantos anos você esteve longe de mim nesta vida; claro que não nestes termos. E vou me perguntar, em silêncio, por quanto tempo eu terei a honra de ver tamanha beleza. Quem sabe um dia possa te fazer esta pergunta, Catarina; e aí, sofrerei também os segundos que seus lábios e cordas vocais separarem de meus ouvidos tal resposta.

Estou fazendo planos demais para quem não deveria planejar nada. O simples planejar joga-me uma culpa que não é minha. Culpo meu coração. Culpo coisas abstratas, pois só a elas consigo jogar esta culpa que a sociedade poderá impor sobre mim algum dia. Uma centena e um pouco mais de anos atrás isto não seria nenhum absurdo. Fosse um casamento que as famílias consentissem, estava perfeito. Nestas ocasiões o que menos falava era o coração; mas imagino os grandes amores que homens sentiram por meninas e que, melhor, foram correspondidos à altura; imagino as cortes que estes homens fizeram por elas, a docilidade da conversa frugal na sala da família destas. Avanço um pouco mais no tempo, no penúltimo século, lá no comecinho; a sociedade começando a ficar cada vez mais moralista neste sentido, porém, no interior do Brasil e de outros países, as mocinhas também casavam com os “homens já feito” daquele tempo. O calor dos trópicos, as músicas sertanejas que adocicavam os finais da tarde. Até mesmo o soar dos sinos deveria ser motivo para palavras apaixonadas dos “pombinhos”. E em todas estas cenas eu só conseguia visualizar “minha” Catarina. O minha foi logo dispensado de meus pensamentos; tinha que me conter em todos os níveis possíveis. Antes de dormir, para aplacar minha alma, fui compor algo ao piano. Dediquei a pequena e rápida melodia “a ela”.

Catarina apareceu-me num sonho estranho: a melodia que compusera naquela noite, eu a tocava – ela ganhara alguns floreios neste meu sonho – numa igreja vazia; estava feliz com aquele momento meu e, no sonho, não pensava nela. Lembro que acordei rapidamente com alguma coisa e logo voltei a dormir. Por incrível que pareça, meu sonho continuou, mas agora era outro. A igreja também era outra, uma igreja maior, como a Matriz; e ela estava agora com todos os seus bancos preenchidos por todo o tipo de gente. Não tentei reconhecer ninguém, mas continuei tocando a melodia. Quando olhei para a porta, Catarina entrava na igreja com um vestido de noiva, vermelho, aumentando o olhar de espanto das pessoas. Havia um pequeno burburinho entre os presentes. Olhares se cruzavam faiscando indignação, e eu, com um sorriso enorme, olhava-a chegar cada vez mais perto; veio na minha direção e beijou-me na boca durante muito mais tempo do que seria o normal. Quando nossos lábios se desgrudaram, a igreja estava vazia. Nem mesmo havia um padre para sacramentar o que quer fosse para ser sacramentado. O que era pra ser feito, o amor, estava feito, pensava, enquanto a abraçava ternamente. Então o sonho acabou: meu aparelho de som despertou.

O dia passara lentamente. A espera angustiava-me profundamente, mas eu não me deixava abater. Haveria de passar estas próximas vinte e quatro horas pensando em coisas para fazer. Fiz a partitura da melodia que, um dia, intitularia Catarina. Por enquanto ficou como “Amor”. Dei aula normalmente, apesar de olhar para porta da salinha e vê-la – em minha cabeça – entrando algumas vezes. Mas amanhã ela chegaria. Amanhã seria um belo dia. Delirava com a hipótese de ser, também, um belo dia para Catarina; esforçar-me-ei ao máximo para que ela tenha, pelo menos nos quarenta e cinco minutos em que estiver sob minha tutela.

(fim da 2ª parte do capítulo I)

publicado na edição #8 do Clap, em dezembro de 2007

Written by Rômulo Mafra

17 dezembro 2007 at 1:22 am

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Capítulo I (1ª parte)

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I

Doze anos? Essa era a pergunta que vinha me fazendo esta semana. Mudei de pergunta em pouco mais de quatro dias; até então a pergunta era: eu não sou homossexual? A resposta veio rápida, repassando o que me aconteceu:

Quando a encontrei pela primeira vez – uma semana se passara desde então –, seus olhos se encontraram comigo e eu desvaneci. Senti meus pés suando, assim como minhas mãos. Forçava minha mente para não gaguejar. Ela entrou como uma deusa-ninfa. Uma ninfa com pouco mais de dez anos de idade, e com uma presença de espírito de uma deusa. Absorvia todos os meus olhares e todas as outras meninas e meninos que monitoro para o coro também foram absorvidos. Eles – meninos e meninas – passam por mim durante dois meses até entrarem no coro infantil. E ela agora ficaria por todo este tempo sob minha tutela. Sabia que não podia ceder neste tempo, e poderia esperar o momento certo, para depois não recaírem acusações insidiosas sobre mim. Mas que nada! No primeiro dia, quando fazia o “reconhecimento” dos alunos, tomei a mão de cada um – uma desculpa para poder tocá-la e reconhecer o motivo dos meus batimentos acelerados. Quando nossas mãos se encostaram ela parou de encarar-me – o que fazia desde que entrou – e fechou os olhos; suspirou e depois continuou assim quando a soltei. Não posso precisar o tempo que ficamos de mãos dadas. Sei que foi o mínimo para que ninguém pudesse pensar qualquer coisa, e o máximo para que o relógio parasse. Consegui escutar até mesmo um violino que era tocado no outro lado do instituto.

Mas o momento acabou, só que os segundos corriam, agora, sem pressa. Eu estava em câmera lenta, e a percepção de seus olhos-amêndoas me seguindo, bastava para meu coração continuar batendo. Mas o gran finale daquele dia foi quando seus lábios se apertaram contra minha face, ao se despedir. Senti seu calor, o provável calor de seu semblante ruborizado naturalmente – ela parece não usar nenhuma maquiagem. Ao sair da sala fui obrigado a sentar-me. Continuava ouvindo a nota aguda do violino, sentindo seu leve perfume de menina-mulher. Na sua ficha não constava idade, um descuido que iria corrigir na próxima aula, mas o destino não me sorriu; tive que me ausentar por alguns dias, pois trabalho como músico e isso me obriga a viajar constantemente.

Estes dias foram sofríveis; sim, minha homossexualidade era uma farsa – voltando a minha pergunta inicial que mudara –; uma farsa montada por mim mesmo desde que nasci; desde minha infância, até o começo da adolescência. Este tempo todo foi preenchido com música: canto lírico, um pouco de violino, piano, e, há poucos meses vinha aprendendo violão.

Com o piano e com o canto lírico, mais um pouco de violino, começo meus passos na carreira de regente de coro, claro, como monitor de coros infanto-juvenis. Mas é o primeiro passo. Só que o risco desta minha mudança de pergunta, aumentava um temível fim de carreira. Isso tornar-se-ia realidade somente se tudo que minha mente sonhava, acontecesse; obviamente pensando no lado ruim da coisa. Já, se eu tivesse sorte… bem, nesse momento eu paro de pensar. Sem planos, é assim que tem que ser, e assim que será.

(fim da 1ª parte do capítulo I)

publicado na edição #7 do CLAP, em setembro de 2007

Written by Rômulo Mafra

17 dezembro 2007 at 12:46 am